PENSATA
(Do livro “Alguma Solidão e Muitas Histórias”,
de Maria do Rosário Caetano, edição da Gráfica
do estado de São Paulo)
“Sempre reagi com uma
certa desconfiança quando me perguntam ou afirmam que sou um cineasta
político. Posso dizer que tenho e sempre tive, pelo menos desde
os tempos de universidade, o veneno da política circulando em minhas
veias. Há nessa aproximação um tanto de história
pessoal, a origem socialmente baixa e conflituada pelas amizades com colegas
de famílias poderosas, há o próprio exemplo familiar,
com meu pai às voltas com as perdas do passado, a riqueza de meu
avô que meu pai viu escoar pelas mãos finas de minha avó
viuva e incapaz de enfrentar a realidade bruta do mundo, longe de sua
formação de elite. Há também uma certa sensibilidade
social que posso encontrar em minha própria infância, o sentimento
de revolta contra injustiças cometidas contra um amigo negro criado
como escravo em casa de meus tios. Há um pouco de tudo isso e acho
que a política em mim emerge desse caldo formado por um tanto de
revolta e um tanto do sentimento de dificuldade diante dos problemas reais
da vida. A verdade é que sempre fui um sonhador, desde garoto,
às voltas com problemas imaginários que poderiam estar substituindo
os reais problemas de minha família, as dificuldades econômicas,
as privações que eu não via nas casas de meus amigos
abastados. Fui crescendo interiorizado, como um bobo encantado diante
de um mundo inexplicável. Uma adolescência carregada de dúvidas,
de rebeliões juvenís como o ateísmo, o espiritismo
que substituía o catolicismo de minha mãe, o agnosticismo,
o materialismo, - tudo carregado de abstrações,
emoções incontroláveis, equações matemáticas
que buscavam soluções para tudo, teoremas inventados, sofismas,
o alcool - uma crise profunda que quase arrasta minha adolescência
para o nada, para o desastre pessoal, antes da Universidade.
De certa forma, a Universidade me possibilitou reencontrar a vida.
Não tanto pela instituição, mas pelo aprendizado
humano, pelo contato com informações culturais mais sofisticadas,
pela descoberta da política.
Aprendi logo que as idéias podem gerar movimentos, que a revolta
de cada um pode se reconhecer num sentimento mais amplo de inquietação,
que minha subjetividade poderia se reconhecer em projetos coletivos, carregados
de verdades “científicas” e capazes de mobilizar milhões
de pessoas, de mudar a história, de realizar o sonho de uma sociedade
igualitária e de plena justiça.
Na verdade eu nunca me livrei da perturbada inquietação
de minha juventude,
o que me forçava a um permanente esforço de “racionalidade”,
de encontrar eu meu cáos interior um discurso político objetivo,
possibilitado pela militância e pelas leituras. A permanência
dessa perturbação interior pode ser percebida pelo retorno
de profundas crises pessoais em vários momentos de desarticulação
política, como em 64, 68 e, mais tarde, com a queda do socialismo
real, momentos em que as perdas reais se confundem com as dificuldades
pessoais de enfrentar a vida.
Eu descobri o cinema, como pretendente a cineasta, justamente no primeiro
período politicamente articulado de minha vida, na Universidade,
quando já militava no PCB e era até mesmo diretor da UEE-SP
(União Estadual de Estudantes- São Paulo). Mas só
descobri a verdadeira face de meu cinema em 1966, quando filmei meu primeiro
filme “solo”, o “Liberdade de Imprensa”. Só
ali percebi como o guia de meu cinema haveria de ser a inquietação,
a busca de algo indefinido mas forte, a exacerbação de conflitos,
a dificuldade diante dos desafios e das injustiças. De como, por
baixo de qualquer proposta “racional”, organizada, que eu
mesmo me propusesse, fervia esse caldo dominante de minha formação
que marcaria não só meus filmes mas toda minha vida. Minha
vida, fazendo dela uma duna de altos e baixos emocionais, de grandes alegrias
e grandes sofrimentos. Meu cinema, fazendo que nele estivesse sempre uma
certa urgência, a atração pelos conflitos sociais,
o desejo de revelar a opressão e as injustiças, -e a persistência
da dificuldade de resolver os desafios dessas revelações.
Basta ver em “Gamal”, o conflito entre o intelectual em crise,
impotente e seu demônio interior ostentando sua potência incontrolável
até que os dois se fundam na morte que apenas realiza os desejos
dos que os manipulam. Em “Doramundo”, a possibilidade de consciência
do maquinista Pereira ( Rolando Boldrin) que é destruída
pela carga de emoção com que reage à possibilidade
de que sua mulher o tivesse traído com o operário Raimundo
(Fagundes). Em “A Próxima Vítima”, de como a
consciência, a descoberta do mundo das injustiças e manipulações
vivida pelo repórter Davi (Fagundes), não lhe dá
a força necessária para mudar a história. Ou de como
em “O País dos Tenentes”, a crise pessoal do ex-tenente
Gui (Paulo Autran) faz com que ele tente parar a história marcada
por erros e manipulações. Em “O cego que gritava luz”,
a impotência do velho contador de histórias diante de sua
própria história. Em “O Tronco”, o coletor Vicente
(Ângelo Antônio) cujas idéias carecem de força
social para transformar o mundo, fragilidade que o coloca a mercê
da guerra entre os verdadeiramente poderosos. Ou em “Rua 6...”
a busca obsessiva de Solano (Marco Ricca) em busca de uma outra história
para sua própria vida.
Daí uma certa dificuldade, uma certa recusa em aceitar a definição
simples de “cinema político”. Talvez seja, embora o
tema seja, quase sempre, o da dificuldade da política.
De propósito, não citei acima, entre os filmes de ficção,
“O homem que virou suco”. É o filme síntese
de todo esse auto-retrato onde se pode ver a identificação
política com a luta social e a vitória do personagem Deraldo
( Zé Dumont) “intelectual” que vence, depois de procurar
e se encontrar com seu sósia ( na verdade seu outro lado “pura
emoção”, como em “Gamal”) , o operário
Severino (também vivido pelo genial Zé Dumont). É
um momento de encontro pessoal, de crença na possibilidade de mudanças,
numa época em que eu participava ativamente da reconstrução
do PCB, da luta política contra a ditadura e, no cinema, pela retomada
do cinema paulista (como dirigente da APACI). Por tudo isso, quem sabe,
o sucesso do filme. Mas esse momento duraria pouco, como se pode ver,
explicitamente, no que seria o próximo filme, “Os Demônios”,
abortado pela ditadura (proibido ainda no roteiro, antes de ser filmado)
e “A Próxima Vítima” , onde é evidente
( nos dois) o descompasso entre os discursos oposicionistas (anti-ditadura)
e a realidade social percebida pelos protagonistas”. |